A página em branco
- Alessandra Lagun
- 25 de mar. de 2023
- 2 min de leitura
O medo da página em branco sempre esteve comigo. O medo de começar e errar. Mas o medo não me paralisa. Ele me impulsiona. Vejo meu estojo de aquarela e ele é branco também, ou era. Agora sujo e cheio de marcas de tinta já deixou o branco pra trás.
Amo pintar. Amo o cheiro da tinta. A aquarela tem vida própria, dizem, quase impossível de controlar. Talvez por isso ela me atraia… ela divide a responsabilidade.
Não gosto da aquarela certinha, refletindo uma verdade incontestável. Gosto da aquarela solta, de deixar as cores se misturarem, do borrão da água, das marcas. Elas contam uma história, que não há volta atrás… até tem conserto mas que na verdade é um novo caminho criado a partir do erro. Mas cuidado, se misturar algumas cores o resultado pode ser aquela "lama".
Quando pinto, deixo o pincel me levar. Sou rápida e acabo escolhendo sempre as mesmas cores (que vejo agora fundas em seus compartimentos, desgastadas pelo uso.) É o caminho seguro.
Sempre tive uma ligação forte com a arte e talvez tenha perseguido de maneira medrosa esse caminho. Mas ela me fascina. Toda e qualquer arte. Ela me invade, olhos e alma. Lembro da primeira vez que vi um teatro musical e a sensação de explosão que não cabia em mim. Sempre que "estreio" algum tipo de arte ou material é como se essa mesma euforia tomasse conta.
Queria ousar mais. A cor está aí. Dentro do estojo… me esperando. Esperando que o pincel finalmente encontre um novo caminho.
A tinta me desafia. Busco um resultado mas é um caminho sem fim. É sempre mais um papel em branco pronto para ser pintado.
Na minha ansiedade muitas vezes não espero a tinta secar. Estrago alguns desenhos e outros acabam ficando melhor. Mas em 90% dos casos o resultado nunca é o que a princípio tinha me proposto. É uma dança entre o pincel, a tinta, a água e eu. Uma regência compartilhada. Dinâmica, mutante.
Muita tinta, pouca tinta. Muita água.
O papel fica lá, paciente, esperando o resultado.
Ao mesmo tempo que existe uma briga, existe uma paz, uma força que hora puxa pra um lado, hora pra outro. Um balé sem fim.
Sinto a pintura como uma melodia interna que vai se escrevendo, não em notas, mas em cores e formas. Uma sinfonia eternamente inacabada.