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Apertem os cintos! (uma autoficção...)

  • Foto do escritor: Alessandra Lagun
    Alessandra Lagun
  • 16 de mai. de 2023
  • 3 min de leitura

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Domingo à tarde, Paula fez o check-in da ponte aérea com a tranquilidade de quem passa por essa rotina quinzenalmente. Aguardou na sala de embarque junto com sua equipe, sem dar muita atenção às nuvens densas que se aglomeravam no horizonte.

Embarque feito, aeronave na pista pronta para decolar, logo estaria em casa. Dos muitos medos que tinha, voar não era um deles. Depois daquela aceleração familiar, o barulho dos trens de pouso se recolhendo, ficou de olho no sinal para soltar o cinto… odiava ficar presa no assento.

Não lembrava quanto tempo tinha se passado até notar que a liberdade para poder se levantar não vinha. Sentiu que estavam com uma certa dificuldade para atingir a altura… parecia que a aeronave não tinha forças.

Logo veio a primeira turbulência, o deslocamento brusco que fez com que seu corpo se descolasse da poltrona. Olhou em volta para ver se haviam mais rostos alarmados… Ela via os pingos de chuva se arrastando pela janela. Se lembrou das nuvens negras. Sentiu como se uma mão apertasse seu estômago.

Depois de mais alguns solavancos, o avião se estabilizou e Paula viu com alívio as comissárias surgirem com o carrinho de bebidas.

Por pouco tempo.

Com o aviso do piloto para retornarem a seus assentos, deram meia volta sem nem mesmo distribuírem alguns poucos copos de água. Ao seu lado, uma senhora esfregava nervosamente as mãos. Por cima do encosto das poltronas à frente notava as cabeças inquietas e o zumbido dos cochichos se espalhava atrás dela como se o menor dos barulhos fosse desafiar ainda mais a tempestade. Do outro lado do corredor, reparou na menina de uns dez anos (era uma atriz mirim dessas que faziam sucesso de uma hora pra outra).

Novamente a sensação de estar perdendo altura e aquela aceleração para retomar. Seu coração parecia que acompanhava esse movimento, batendo mais forte, subindo e descendo na caixa torácica, em desalinho com o resto do corpo. Começou a sentir os ombros tensos, a cabeça doendo, o suor que descia pelas suas costas apesar do ar gelado. Ainda estavam na metade do caminho.

Aos poucos, Paula sentiu o ar começar a ficar pesado, como se fossem se dando as mãos os pensamentos de cada passageiro. Tentou olhar pra trás e localizar algum olhar que lhe dissesse que estava tudo bem.

Uma queda mais intensa fez com que ela, que não se considerava muito crente, começasse a rezar para Deus, Alá, Jeová, Buda e qualquer outra divindade que lhe viesse a cabeça.

Mais um vazio e outra retomada.

Seus músculos, retraídos, não se moviam. A mão segurando fortemente o apoio da poltrona, a cabeça pressionando o encosto. Ainda faltavam 15 minutos.

Nunca pensou que poderia morrer daquela maneira. Lembrou da pequena menina ao lado... “Sempre tem alguém famoso quando cai um avião”, disse pra si mesma… já visualizando até as manchetes: “Morte precoce da atriz XX em queda de avião deixa o pais em choque”. Nem uma linha sobre Paula, era uma simples anônima. Como a maioria das pessoas no vôo.

Dez minutos. Se o piloto conseguisse segurar as rédeas mais dez minutos, estaria em casa. Dez minutos.

O piloto… ele não dera nenhum aviso… nenhuma informação sobre a nossa situação até então. Aviso sonoro… “Em alguns momentos estaremos pousando no aeroporto Santos Dumont”. Mais uma vez tentou localizar nos rostos ao seu redor a mesma sensação de alivio que estava sentindo.

Sentiu o trem de pouso tocar o solo como se fosse ela própria de joelhos beijando o chão. Será que conseguiria se levantar da poltrona? Sentia seus joelhos ainda tremerem. Mas estava em casa. Novamente olhou para a mini celebridade. A manchete teria que aguardar.

 
 

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