Carta para a madrugada
- Alessandra Lagun
- 6 de abr. de 2023
- 2 min de leitura

Hoje ao abrir a porta que dá para a varanda, senti um ar fresco invadir a sala... o outono finalmente chegou. Tinha sido a primeira noite em que consegui dar trégua ao ar-condicionado também. Gosto do verão mas quando os dias começam a ficar mais frescos, parece que o ar se renova. Tudo fica mais nítido. Sempre fui de acordar cedo... primeiro com as aulas de natação, mais tarde quando mudei para o turno da manhã na escola. Quando comecei a trabalhar fazia academia às 6 da manhã. Bem mais tarde vieram os treinos de ciclismo às quatro ou cinco da manhã. O corpo se acostuma. Na pandemia, fazia questão de levantar cedo, tomar café e começar a trabalhar para não perder o ritmo.
Gosto do silêncio das madrugadas. Parece que elas querem te contar algo sobre o dia que começa. Num sussurro. Sento no meu computador e enquanto vejo os emails, mensagens, faço listas de pendências. Me sento para escrever e as palavras somem. A madrugada quer me contar algo. Algo que aconteceu ou que está por acontecer.
Dou uma olhada nas minhas notas para ver se algo me chama a atenção. "Voçorocas ameaçam engolir casas em Buriticupu". A não ser que você seja um entendido no mundo da geomorfologia, deve ter ficado tão intrigado quanto eu com essa a chamada de uma notícia do jornal semana passada. Tendo acabado de ler "100 anos de solidão"de Gabriel Garcia Marquez, no pequeno momento entre ler a manchete e começar a matéria, minha mente já imagina insetos gigantes, desastres, em uma pequena cidade, se isso não é realismo fantástico, não sei mais o que é.
(Voçoroca. Definição. Escavação no solo ou em rocha decomposta causada por erosão do lençol de escoamento de águas pluviais; boçoroca, buracão, vossoroca.)
A definição não ajudou... imaginem Macondo sendo sugada para o centro da terra, com todos seus habitantes. Buriticupu... o nome da cidade também parece inventado... Uma cidade dividida por uma cratera...
Confesso que passei muitos anos tentando chegar ao fim deste livro mas nunca passava das 10 ou 15 primeiras páginas. Não sei... não me prendia. Mas dessa vez me forcei a chegar até o fim. Achei confuso, me perdia nos personagens, mas desta vez não desisti. Faltando umas 5 páginas para o final não conseguia ainda entender o sentido. E eis que tudo fez sentido no último momento.
Talvez a vida seja assim. Um mistura da nitidez do ar fresco de outono com o surrealismo que encontramos ao folhear os jornais de hoje. Talvez a vida seja um constante encontro deste último momento em que a penumbra dá lugar aos primeiros raios, talvez no silêncio da madrugada esteja a resposta...