Lágrimas
- Alessandra Lagun
- 24 de mai. de 2023
- 2 min de leitura

Muito antes de começar o terror, ele já estava lá. Se erguia atrás do edifício de linhas simples que abrigava o regimento. Todo feito de antigas grandes pedras empilhadas à perfeição. Com o início da guerra, cada vez mais, assistia, impávido, o vai e vem de caminhões e tropas. Mas numa dada manhã, esse muro, que até então não tinha função a não ser a de limitar a propriedade, presenciou algo que faria parte de seu cotidiano pelos próximos trinta e seis anos.
À frente de um pelotão de seis soldados avançava um homem, com nenhuma característica marcante, com as mãos amarradas atrás do corpo. Esse homem foi posicionado de costas para esse muro, porém , olhando agora de frente, antes que lhe vendassem os olhos, àqueles que seriam seus algozes.
– Últimas palavras? – Perguntou o que parecia estar no comando. Nenhuma resposta.
Dado o sinal, os fuzis dispararam. Alguns acertando o alvo e outros as pesadas pedras de sua construção.
Com o passar dos dias, meses, anos, esse ritual se repetia. Aos poucos, o muro ia começando a entender o que se passava. Uma nova ditadura havia sido instalada, um comandante à que muitos se referiam como Generalíssimo Franco, el caudillo*, tinha ascendido ao poder. Era um governo conservador e que colocava el país em primeiro lugar de uma maneira que o muro, com seus poucos “pedrônios” não conseguia entender…
A cada dia, assistia, sem poder se manifestar, a esses fuzilamentos. No início eram rapazes, depois também mulheres. Mesmos delitos, mesmas histórias, diferentes feições, mesmas sentenças. Para o muro, pelo menos… Ele refletia sobre por que um catalão ou um basco era menos espanhol do que os próprios soldados que disparavam… Um cidadão não podia mais ter idéias próprias ou defender seu pedaço de pátria?
As idades variavam mas à medida que os anos iam se passando, uma coisa tinham em comum… as últimas palavras… “Morte à Franco!”. E, para além delas, o som dos tiros ecoavam. Ou se era a favor do governo ou não se “era”. Ponto final.
Se o muro pudesse se abaixar para que os que estavam do lado de fora tivessem conhecimento do horror, teria feito. Era uma testemunha muda e inerte que via, a cada dia, o sangue borrifado atingir sua frente e escorrer feito lágrimas. Certa vez um homem foi perdoado e ele sentiu, numa fração de segundos, o suspiro aliviado, não do prisioneiro, mas de um dos soldados que ali “cumpria seu dever”.
Anos e anos se passaram até o fim. Até que um oficial anunciasse que aqueles seriam os últimos. Execuções autorizadas pelo próprio Franco em seu leito de morte.
Hoje aos seus pés, onde as pedras tocam o chão, nascem flores cujas raízes brotaram do sangue derramado. Tantas quanto almas que ali desencarnaram. Elas redimem esse nosso personagem que, assim como seu povo, carrega na “pele” as marcas doloridas desse passado sombrio. Para que não se repita.
*chefe militar, ger. de forças irregulares que lhe são fiéis; chefe político que possui uma força militar própria.