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O silêncio não está coberto pelo plano.

  • Foto do escritor: Alessandra Lagun
    Alessandra Lagun
  • 1 de mai. de 2023
  • 3 min de leitura

Essa semana meu pai sofreu uma queda e fraturou o fêmur, coisa bastante comum aos oitenta anos. Primeiro ele achou que tivesse somente estirado um músculo e não queria de jeito nenhum que chamássemos uma ambulância. Mas não teve jeito… não conseguia se levantar. Depois de 40 minutos, estávamos à caminho do início desta história.

Chegamos ao hospital e começam os exames, raio x, tomografia (por que aparentemente no raio x não foi possivel fazer todas as imagens devido à dor… alguém podia prever isso?), de maca em maca, a dor clara. No primeiro exame, o ortopedista já disse. Para estar doendo assim teve quebra. Enfim diagnosticada a fratura, vimos que a estada ia ser mais longa.

Cirurgia marcada para o dia seguinte. Agora, era esperar a transferência para o quarto. 30 minutos, uma hora, duas horas… e nada. Tento me informar e me dizem que estão esperando autorização da seguradora. Alguém pode me explicar como é que nos dias de hoje ainda nao existe um sistema em que a partir do momento em que você informa o seu plano e o atendente insere o numero, ele seja informado a que você tem direito? Nao estou falando de uma cirurgia no cérebro resultante de uma bactéria recém-descoberta. Estou falando de direito a um quarto.

Seis horas depois,finalmente, podemos descansar para a epopéia que será o dia seguinte. Ahhh ledo engano… Hoje existem mais aparelhos conectados ao paciente do que braços disponíveis. E todos eles apitam e acendem, seja para avisar algo, seja somente para dizer que estão funcionando. E, nao é aquele barulhinho baixo mas irritante, é alto e muiiiito irritante, tipo a tortura chinesa levada à décima potência. Chamamos a enfermeira pedindo para tirar o barulho…

- Ah… infelizmente, não será possível pois temos que monitorar…

- Mas então esse barulho não deveria ser perto de vocês em caso de emergencia? Chama o medico de plantão!

Se alguém tinha alguma esperança de dormir, esquece. Meu pai argumenta que se é assim num dos melhores hospitais do Erre Jota, imagina na rede pública… Eu imagino, com uma certa inveja, que talvez lá não existam todos esses aparelhos biônicos estridentes (desculpem a insensibilidade… deve ser a privação do sono).

Cinco da manhã desistimos e ligamos a tv. Às 9 horas, hora de começar o expediente, chega um técnico, explicamos, ele calmamente vai até um botão amarelo no monitor e pressiona por uns 3 segundos, assunto resolvido. Vou indicar pro premio Nobel por que deve ser um gênio que resolve algo que 5 enfermeiras e um médico de plantão (que nem apareceu) conseguiram resolver.

No dia seguinte, operação um sucesso, revezo com minha mãe. Dia 1 sem queixas.

No segundo dia, os aparelhos se revoltam e começam todos a apitar ao mesmo tempo em alturas diferentes, compassos diferentes. Minha mãe vai até a estação de enfermagem e avisa que deu a louca nos monitores. 10, 20, 30 minutos e ninguém aparece… minha mãe resolve apagar tudo… fica imaginando que o monitor mudo das enfermeiras vai avisar que algo aconteceu. No mínimo, como cessaram os sinais vitais, devem vir correndo… mais uma decepção… ficaram mais de uma hora com tudo apagado e quando finalmente apareceu alguém, com a maior calma:

- Ah sim… notamos… mas às vezes ele perde o contato…

Depois dessa e conversas com os médicos decidiram deixar ligado somente quando vem fazer determinadas medições… parece que vamos ter uma noite tranquila.

Cinco da manhã… Bom dia!!! Adentra um enfermeiro… eu não respondo e meu pai continua aos roncos. BOM DIA! Ele diz novamente… nada… ai comenta: ele não quer acordar não? Como se fossem 10 da manhã e tivéssemos perdido a hora…

Pelo visto o silêncio, assim como a ambulância, não estão cobertos pelo plano.


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