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Pode se ter saudade de algo que não se viveu?

  • Foto do escritor: Alessandra Lagun
    Alessandra Lagun
  • 25 de abr. de 2023
  • 4 min de leitura

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Sou filha de uma argentina com um gaúcho que se conheceram aqui no Rio de Janeiro, em meio à explosão da Bossa Nova. Minha mãe veio de Buenos Aires aos nove anos. Meu pai deixou Porto Alegre aos sete anos, também com destino à Cidade Maravilhosa. Meus avós paterno e materno transferidos a trabalho. Se conheceram aos 15 e 17 anos na Cultura Inglesa. Aqui no Rio, só tinham aos seus familiares diretos. Eram famílias pequenas, árvores com poucos galhos mas muitas raízes. Tirando um curto período de desentendimento no namoro, estiveram juntos desde essa época, se casando após formados nas devidas faculdades. Desse casamento, primeiro nasci eu, e dois anos depois minha irmã. Como minhas tias, de ambos os lados, eram bem menores, não tivemos primas ou primos de idade próxima. A irmã da minha mãe se mudou para São Paulo onde mora até hoje e também minhas três primas. E a irmã do meu pai, que apesar de ter residido mais tempo no Rio, também acabou adotando São Paulo com minhas três primas e um primo.

Apesar de ter nascido no Rio, não sou a típica carioca. Vou à praia mas não sou fanática. Não sou de me esbaldar em blocos de carnaval nem de madrugadas na Lapa. Minhas madrugadas, quando muito, são dedicadas aos esportes. Certa vez, fui parada na Lei Seca às cinco da manhã quando dirigia rumo ao ponto de encontro da minha equipe de ciclismo. Na fila do bafômetro, eu com meu uniforme fluorescente dos pés à cabeça em meio à vestidos de festa e cheiro de bebida. Apesar de ser uma pessoa solar, prefiro o frio ao calor. Provavelmente por ter sido a interseção de dois caminhos que vieram do sul.

Com a família do meu pai, tios, primos, avós, infelizmente nunca tive muito contato. Minha mãe, por outro lado, ainda tem uma relação forte com o lado da família que vive em Buenos Aires e essa proximidade afetiva também também me contaminou. Recentemente, fizemos uma viagem à Buenos Aires e reconectamos com esses parentes distantes. Pessoas cujas histórias sempre fizeram parte do meu livro de recortes imaginário. Tenho um sentimento, uma sensação de pertencimento a esse outro mundo a dois mil e seiscentos quilômetros de distância. Esse mundo que na verdade tenho pouco familiaridade mas que me tem amarrada por um fio invisível e que me completa de uma maneira inquietante.

Minha avó materna tinha quatro irmãs e cada uma com pelo menos dois filhos. Nas incursões à casa destes primos, me atualizo sobre algumas histórias recentes, como se estivesse lendo edições de um jornal genealógico com direito a fotos, comentários, críticas e até uma previsão de um tempo futuro. Nesse momento, me invade uma saudade de algo de não vivi. Uma falta dessa família que não tive. Uma nostalgia de momentos que não presenciei. De encontros com a mesa cheia e até de discussões acaloradas entre familiares que só conheço pelas narrativas controversas de ambos os lados. Da cumplicidade com primos mais velhos ou pelo menos mais próximos (sou a neta mais velha dos dois lados), eventos que insistem em ocorrer nessa linha do tempo deslocada em que eu sou a prima distante e desconhecida.

Talvez seja por isso que os universos distópicos me atraem. Pensar que talvez se por algum outro fator, meus pais tivessem se conhecido na Argentina e não aqui (meu pai também tem parentes por lá). E que em algum lugar, nesse mesmo dia e horário, existe esse Eu que talvez tenha vontade de conhecer o Rio (como todos os portenhos). Que se sinta sufocado por ter uma família grande e barulhenta (pois afinal essa árvore tem raizes com pontas profundas na Italia e Espanha). Talvez esse outro Eu nem tenha tanto apreço a todos esses laços de sangue que me foram subtraídos. Olho no espelho e vejo um reflexo que tem vida própria.

Mas voltando a este lado do espelho... Hoje minha irmã mora no interior de São Paulo (de carro se chega em 9 horas sem paradas longas). E, aqui no Rio, meus pais e eu. Ela teve dois filhos. Uma menina que faleceu antes dos dez anos e um menino que hoje completa 16 anos. O que me transporta mais uma vez ao encantamento da distopia. Imagino que nessa outra dimensão, ainda estamos todos juntos, mesmo sendo poucos. Então, sinto a ausência desse futuro cavar mais fundo no meu peito. Nessa linha paralela, meu sobrinho discute com a irmã por uma besteira qualquer e nas datas festivas o riso é solto e leve. Também existem feitos e desavenças que deixarão rastros de alegria ou de tristeza.

Talvez buscar esses diversos planos sejam uma escapatória para o que não realizamos ou vivenciamos. Talvez sejam realidades não materiais. Tantos mistérios quanto as dimensões que a nossa mente pode alcançar. E para cada uma delas existe um eu que se arrepende, que deseja, que realiza, que sente a ausência de algo que não conheceu mas que tem tanta certeza da sua materialidade que não pode deixar de recordar. Saudades reais de realidades inventadas.

 
 

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