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Vazio

  • Foto do escritor: Alessandra Lagun
    Alessandra Lagun
  • 29 de mai. de 2023
  • 3 min de leitura

Ele descobriu, por acaso, aos 19 anos, que era adotado. Aquilo caiu como uma bomba na sua vida. Se sentia perdido, esvaziado de referências. Tinha uma relação boa com o pai. Não tinham os mesmos interesses, quase não conversavam, achava o pai acomodado demais, mas isso não era motivo para achar que não tinham um laço mais forte, de sangue. Da mãe, já falecida, não se lembrava muito. Até a data da descoberta, tinha certezas. A partir dela, só dúvidas.

Confrontou o pai com o exame. Com a tristeza do inevitável, aquele homem que muitas vezes parecia não notar sua presença, confirmou com os olhos marejados. Naquele momento, Ivan deixara de ser um pouco seu filho e na alma sentiu saudades prematuras de quando escutava: "Ele é a cara do pai".

Na sua mente mil perguntas se formavam. Quem eram seus pais, quem era ele, será que havia nascido mesmo em São Paulo? Seria Ivan seu nome mesmo? Aquele pensado por sua mãe verdadeira. Meio a contra-gosto, estava prestes a começar a faculdade de Direito, seguindo os passos de seu pai... mas espere... não... e se seu pai fosse um pintor famoso? Ou comerciante? Ou sua mãe uma jovem hippie que havia morado em uma comunidade? Estava tudo em suspenso. Primeiro precisava se conhecer de verdade. Aos poucos a tristeza ia se transformando em angústia, em pressa, como se o tempo fosse seu inimigo, uma correnteza que ia de encontro à sua necessidade de seguir um frente.

À medida que Ivan ia se buscando, ia se sentindo mais perdido. Em ações que não necessitavam antecedência, ele ia tentando aprender um pouco mais sobre si mesmo. Não sentia necessidade de seguir o caminho de seus pais. Esses que ele não conheceu. Nunca pensou em procurá-los de verdade, preferiu a fantasia. Não lhe interessava por que tinha sido dado para adoção. Preferia começar do zero. Geração espontânea. Realizar seus próprios sonhos.

Largou a faculdade de Direito e prestou vestibular para Comunicação Social. Tinha mais vontades do que tempo para realizá-las. Como se antes daquele fatídico dia, estivesse adormecido. Viajou o mundo. Casou, descasou. Não teve filhos, em algum lugar remoto no seu inconsciente esse capítulo ainda era dolorido. Porém, não importava para onde fosse ou estivesse, ou à quantas aventuras se entregasse, ainda se sentia descolado da sua própria história. Nesses vinte anos que se passaram entre a descoberta e o presente, não sabia dizer se fora feliz ou não. Estivera ocupado, isso com certeza. A correnteza que antes o impedia de seguir, agora era sua parceira. Tanto que muitas vezes nem notava o que havia nas margens, seguia o fluxo sem se prender a nada.

Quase já não tinha contato com o pai quando recebeu o telefonema avisando do seu falecimento. Semanas depois, remexendo em memórias que ele achava que não lhe pertenciam, encontrou uma carta. No envelope: "Para Laura". Era o nome de sua mãe adotiva. Reconheceu a letra do pai. A antecipação de novas descobertas fazia gelar seu estômago.


"Querida Laura,

Escrevo para lhe dizer que volto dia 7, não vou mais perseguir sonhos tolos e desejo estar contigo.

Já avisei no jornal que fico somente até o fim do mês e aceitei a proposta para trabalhar no escritório

de meu pai. Ansioso por começar uma vida juntos, me despeço.

Para sempre teu, Carlos"


E mais uma vez o destino lhe puxara o tapete. Teve a mesma sensação de quando, numa sessão de meditação, havia experimentado a percepção de estar fora do próprio corpo e numa fração de segundos, sentir a alma encaixar de volta. Essas poucas linhas fizeram o que alguns anos de terapia não haviam conseguido. Sentiu empatia por aquele homem, a quem chamara de pai por tantos anos e que de uma hora pra outra se tornara um mistério maior ainda. No fim das contas, seguira os sonhos daquele rapaz que desistira de tudo por uma família. Que fora definhando com a morte prematura da esposa e tinha somente como lembrança daquela família inacabada, ele, Ivan. Eram dois navios sem porto. Seu corpo se encheu de compaixão. Ele agora entendia, perdoava e pedia perdão imaginando o pai sentado em seu velho sofá onde pairavam palavras não ditas. E num segundo de loucura, o escutou dizer que estava orgulhoso mas que sentia tristeza pelos momentos não aproveitados. E, nesse lugar, se reencontraram, como seres incompletos que eram.

 
 

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